quarta-feira, 27 de maio de 2020
Conto de mãe e filho
_Mãe, minha máscara é de pimenta.
_Então tem que tomar muito cuidado pra não ir no olho, filho!
A-lock!
Ex-pressão. (Estou fisicamente preso em um apartamento, mas meus pensamentos saem
pra passear.)
A-lock!
Ontem descobri quem criou o coronavírius. Foi o Alok! Não se assustem, por favor.
Quem espalhou foi mesmo o Bolsonaro, mas quem criou foi o Alok. Deu pra ver na live
dele.
Cenário: prédios de 50 andares com apartamentos de 3 pavimentos cada. Lembrei de uma
obra-anúncio que vi em uma Bienal de SP. Era apenas um recorte de jornal com a
chamada: apartamentos com 6 vagas de garagem. Genial!
Tinha tudo pra ser muito rico e chique (e brega) se não fosse a vista para um esgotão a
céu aberto, que já foi um rio. Então, para o cheiro do esgoto não atrapalhar a live ou a life
da turma do condomínio, o Alok pensou na solução PER-FEI-TA: coronavírus, cujo
sintoma seria tirar o olfato das pessoas. E se isso não resolvesse, faria a pessoa parar de
respirar.
Uma catinga, fedô, olofô daqueles não podia atrapalhar o set do Alok. Tinha que ser uma
palavra mais anglicanizada.
O cabelo tava ok, a roupa tava ok, a make tava ok, a namorada ok. Todas essas coisas. Só
faltou checar se estava tudo no mesmo nível da Ivete. Mainstreeam é mainstream! Espero
que enviem um gráfico comparativo em breve.
Lembrei de uma evento que tentei ajudar a construir uma triste vez, para uma expoente
marca destruidora do planeta. Foi tudo muito pensado: decoração, chef de cozinha, dj, só
que esqueceram que ali do lado (ali do lado!!!) tinha um canal de esgoto escondido por
trás de umas árvores. (Tamponado que fala,né?) Foi dando meio-dia e o solão apertando e
aquele cheirão subindo. Claro que todos os convidados muito educados e chiques
continuaram saboreando tudo com lindos looks, naturalmente. Engoliram tudo com
aquele fedô engraçado e irônico.
Mas não se assustem mais: a culpa não foi do Alok. Ele não tinha imaginado que parar de
ter olfato e respirar causasse tantas mortes.
Ontem ouvi uma linda frase que me soou como música. Dizia que o real não se imagina.
Era referente ao real do coronavírus. Só que foi em um congresso de psicanálise.
Então, mais uma vez, não se assuste. Esta é uma obra de ficção, como a forma que
passamos pela vida. A realidade tem estrutura de ficção, disse Lacan. (Você pode muito
bem não pensar em nada disso e achar que esta cena é apenas o sucesso.)
Mas o real, que é outra coisa, dá as suas caras. Às vezes em forma de esgoto. Às vezes
em forma de coronavírus. Há outras que a gente nem imagina.Tratemos!
*Tudo isso porque ontem à noite recebi uma mensagem assim no grupo dos primos:
"Tem psicólogo no grupo? Cheguei ao fundo do poço. Ao que tudo indica, vou ver uma
live dum camarada que chama Aloque. Mas parece que o rapaz não canta nem toca.
Oncotô?"
Fui ver quem é e deu nisso. Valeu, Mário! Qualquer coisa, você me defende.
NAUNTERITÊ
Não ter que ir a bares para beber.
Não ter que ir a restaurantes para comer.
Não ter que ver "stories" animadinhos enquanto ficar em casa está pleno.
Não ter que ir a igrejas para ser espiritualizado.
Não ter que torcer pra time nenhum.
Não ter que ir a eventos por obrigação.
Não ter que ir a encontros de aniversário quando não se está a fim de ver ninguém.
Não ter que participar de reuniões presenciais quando as virtuais resolvem até melhor.
Não ter que arrumar a casa tendo algo melhor ou nada pra fazer.
Não ter tanta pressa para entregar um trabalho.
Não ter pressa para ler um livro ou um texto.
Não ter que ver a série da moda.
Não ter problemas com ver tv para apenas se distrair de "tanta coisa ruim acontecendo".
Não ter que ver "o" filme na telona.
Não ter que comprar roupas por não ter onde nem a quem mostrar.
Não ter que estar em dia com a última tecnologia de nada.
Não gastar quase nenhum combustível nem vale-transporte.
Não ter que chamar uber.
Não ter que dar um, dois ou três beijinhos. Nem beijões.
Não ter que apertar mão melada.
Não ter que malhar a não ser que seja para manter a saúde.
Não ter que ser presente nem presencial.
Não ter medo de falhar.
Não ter que nada.
Ter que lavar as mãos sem parar.
Ter que passar álcool em tudo.
Ter que ficar em casa, querendo ou não.
Ter que aprender umas tecnologias por obrigação.
Ter que ver um tanto de vídeo, memes e matérias que não paramos de mandar uns para os
outros.
Ter que aprender umas tarefas domésticas por obrigação.
Ter que lavar banheiro, tirar poeira e passar pano no chão.
Ter que descobrir receitas (de vida, inclusive) diferentinhas.
Ter que ser obrigado a bater panela por ser a única forma não virtual de manifestação
possível contra o fascismo.
Ter que continuar a pagar os "boleto" que não param de ter que chegar.
Ter medo de pôr a cara no sol.
Ter medo de ir ao supermercado.
Ter o supermercado como programa.
Ter que fazer sessões de análise on-line.
Ter bastante medo das incertezas.
Ter medo de ficar doente.
Ter medo de alguém morrer sabendo que muitos alguéns estão morrendo.
Ter medo de alguém ser alguém próximo.
Ter medo de sofrer.
Ter medo de morrer.
quinta-feira, 5 de março de 2020
Uma garota chamada
Assisti ao filme "Uma Garota Chamada Marina" no cinema. Fiz questão de ver na telona.
Saí tão impressionado com aquela história (que sei de cor) que resolvi escrever um pouco sobre o assunto.
Nascemos e caímos, querendo ou não, no campo do Outro. Um Outro que nos conduz e nos traz comandos de como ser isso ou aquilo, certo e errado, bem e mal, sucedido ou não.
Parece que ter uma carreira de sucesso, ganhar um dinheiro, comprar um ap, viajar o mundo são receitas de felicidade e caminho comum das pessoas bem-sucedidas.
Mas...e o que a linguagem não consegue traduzir nem dar conta, isso que a psicanálise chama de Real?
E o sujeito? O desejo, aquele que também não há palavra que traduza?
Marina tem na voz o instrumento de todas essas conquistas citadas anteriormente. Tem a sedução ali. Todos se encantam. "E essa voz que Deus me deu."Claro que, além da voz, outros atributos se juntam. Mas é a voz que cumpre a função fálica da mal-sucedida tentativa de completude do outro, do desejo do outro.
Como deve ser bom! Ser muito craque porque Deus deu. Atravessar o mundo, a vivência, a experiência de estar aqui sem pagar ingresso de entrada nem impostos. Pensamos e suspiramos nós simples mortais.
Só que não.
Onde se escondeu um sujeito único, faltoso e, por isso, desejoso por trás daquela voz? Onde se escondeu alguém que é muito mais do que a grande cantora ou o maior sucesso de um mercado? O que esta maior cantora tem de peculiar em relação a outra maior cantora?
Às vezes é preciso matar o pai para se aproveitar dele, como já nos ensinou o gênio Lacan. Às vezes é preciso matar o que nos é mais caro para que o sujeito seja do seu jeito. Mesmo que isso custe muito, doa muito, leve muito tempo (tempo lógico, claro!). Uma voz não deveria poder tamponar um sujeito. Nem fama, dinheiro, sucesso. Nem excesso ou falta de "amor" de um outro.
Nem compras nem remédios nem profissão.
Desejo é um caminho muito árduo. Nem de longe é o mais fácil.
Marina diz no filme: "tentaram me cristalizar" fazendo referência ao Cristo Redentor. E o nome dela está lá mesmo, não no Corcovado, mas em um hotel fazendo parte de uma das paisagens mais fotografadas. Até hoje.
Mesmo que o Hotel Marina não se acenda mais, a marca, o registro fica de alguma forma. Resta.
E o sujeito encontra sua saída. Às vezes é preciso ser vira-lata para quem tem algo de vira-lata. É preciso sair na multidão de São Paulo, pegar o metrô, gritar keep walking no meio da Paulista. Ser nada. Nada para ninguém. Esvaziar-se do outro e, paradoxalmente, encher-se de outros outros. Outros mais vazios de sentido, outros sem tanto afeto, afetação. Cair do palco e pular feito pipoca.
O filme mostra com sabedoria este momento desta sujeita, que deixou de ser A cantora para viver e sobreviver. A cura, como a do queijo que falo, é uma alegria.
A sorte (minha) é que vi isso acontecendo e participei de uma daqueles processos criativos da Marina. Trabalhando para e com ela, frequentando sua casa e estúdio montado lá, como mostra no filme. Vendo todo aquela fortaleza criativa e objetiva, que agora pode ser tocada pelo subjetivo, pela calma, pelo peculiar, por algo que não existe nos corações cristalizados pelo podre mundo mercado-lógico. Pelo feminino.
Uma alegria isso! Alguns precisaram morrer, às vezes como sujeito, às vezes literalmente. Tem gente que está vivo biologicamente, mas já morreu simbolicamente.
O filme nos mostra um caminho, o da Marina. Ela usa de seu arsenal de significantes para se impor perante um outro perverso, abusador, frio e calculista.
Mas, por favor não se enganem, este caminho é único. Cada um que crie o seu roteiro nessa incrível fantasia que é viver.
E não posso deixar de concluir deixando a mensagem:
Marina não é uma cantora. Marina é um gênio.
Foi bem melhor reexistir para Marina Lima.
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
Nós
Nada de nós sem nós. Ficou ali naquele imaginário do outro, compartilhado por um simbólico ordinário, comum e ordeiro, cordeiro, empobrecido. Algo que tem pena do outro e, ao mesmo tempo, goza com o seu sofrimento. O seu aí cabe muito bem, pois é seu e do outro ao mesmo tempo e a gente sabe disso. E cadê o real? Cadê aquilo que fez pulsar, fez ir, atravessar oceanos? Onde estava o sujeito? A sujeita. O que a sujeita tinha de único e lindo a dizer para além dos clichês? Para além no sentido de trans, que é o significado da palavra. Ficou ali, na mesma. Cis: do mesmo lado de sempre. Quando iremos além? A partir de quando começaremos esta viagem? Precisaremos nos matar quantas vezes mais, inclusive de vergonha e constrangimento? Isso: faltaram nós. Faltou nós. Cada um de nós.
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
Mas
Natal é bem chato, mas tem essa coisa boa do encontro. E, ah, aquela pessoa é insuportável, mas sabe que me surpreendi com a educação? E acaba que é uma ideia muito legal, mas foi meio mal executada. O trabalho agarrou numa bobagem, mas quando sair dessa tenho certeza de que vai dar certo. Nem vou falar de política, apesar de ser tão importante. Vou falar sim, não dá para beijar boca vazia de palavras. Tem gente que vive assim: só pelo olho. Capturado achando que captura. Dá pra engolir não. As pinturas nas laterais dos prédios da cidade estão ficando lindas, mas são empenas cegas: só enxergam os que querem ver. Mostrar a bunda de celulite é muito educativo, mas contratar abusador é muito desaviso. O abusador não tratou bem a bunda cheia de celulite. A música? Sei não. A gente acaba acostumando. Mas tem que beber bastante, que também enche. Bora de água de coco e açaí natural do Pará. Amor e amora. Há consenso: a Pablo Vittar canta muito mal, mas arrasta multidões para o seu canto. Que nem o Chico Buarque. Mas se você mora no Leblon, tudo bem. Só leva xingo de coxinha. E ainda dizem que não há um significante que determine o sujeito. Isso é enigmático, mas também pode ser outra coisa. Pode ser que seja a coisa. Aquilo que foi perdido lá bem no início. Que nem existe, mas a gente fica aí a procurar.
domingo, 12 de novembro de 2017
A penas
Não tenho vontade de sair. Não tenho forças, meu corpo dói, meu joelho berra. Quero falar, mas não tem ninguém que mereça a terefa de escutar. Quero enviar uma mensagem para a minha analista. Quero mais do que uma sessão de uma análise que já teve o seu fim. Não quero estar no Brasil, nem pensar. Não quero ser humano, está difícil defender a espécie. Quero distribuir o que não sei para aquele que não quer. Quero tratar do impossível, dizer o indizível. Quero o real bordejado com algo bem do interior, mineiro de preferência. Não quero notícias: dos portais, de doenças, de morte, do mercado, de famosos, do esporte. Quero o nada esvaziar. Descompleta-me. Quero parar de sentir vergonha do meu país e deixar as pessoas falarem o que bem desintendem. Não quero ouvir. Quero parar e seguir. E escrever o que não cessa de não se escrever. Quero a penas, escrever.
Sob efeito de 2 dias consecutivos de Jornada do Aleph - Por que a psicanálise?
Agora posso continuar.
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
Deixe Levar.
Deixe o capitalista tamponar a dor com bens.
Deixe o sócio se apropriar de tudo.
Deixe os políticos roubarem pra lá.
Deixe os ratos.
Deixe a polícia policiar.
Deixe os ignorantes serem donos da verdade.
Deixe os títulos para os titulares.
Deixe os palestrantes exercerem a falta de talento nas festas de família.
Deixe o publicitário mostrar sua pobre visão de vida na mesa de bar.
Eles não têm outro lugar.
Deixe o pai bravejar.
Deixe a mãe pôr panos quentes.
Deixe o pastor pastar.
Deixe os juízes a julgar.
Deixe a propina rolar.
Deixe levar tudo.
Deixe os ratos.
Deixe pra lá.
Deixe a desejar.
E apenas deixe o seu desejo pulsar.
Este ninguém pode levar.
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
Em nome do Pai.
O velório foi enxuto: pouco tempo, as lágrimas na quantidade certa.
A tristeza estava ali, mas não transbordou. Muita dor, pouco excesso. Muita lembrança e a sensação de que ainda era cedo.
O morto era reservado até na hora da morte. Os filhos em volta eram 6. O sétimo faltou.
Para que ele fosse enterrado, tivemos que seguir em carreata pela cidade tipicamente do interior, passando pela praça central, claro.
Enquanto o corpo seguia em direção ao cemitério, o corpo do 7º filho, ainda vivo e caminhando, subia a rua principal da cidade, na direção contrária.
Sem nem se dar conta de que quem agora ia fugir pra sempre era o próprio pai.
segunda-feira, 15 de maio de 2017
Tape #14
Vou confessar que vi a série 13 Reasons Why só para ler o texto com aviso de #SPOILER da Adriana Pinheiro, que não tem a opção Compartilhar. Hoje, pra mim, a ideia é pensar muito e não fechar, concluir. E falar muito, muito sobre as dores e assunto doídos, incluindo suicídio, sem se esquecer das delícias, claro! Daí já acho que vale a pena a produção, o tempo "gasto" vendo e justifica o sucesso. Quando vi que a "Kidly" falou sobre, pronto, era a amarração que faltava para me motivar. Me vi naquele ambiente colegial, mas eu era um ser dentro-fora (êxtimo). E isso era ok para mim. Tinha meus sérios treinos de vôlei, os amigos mais velhos e um pouco mais maduros, ou seja, já era também de uma balada fora dali. Sem deixar de ser dali, claro, de ser um estudante aplicado adolescendo. Adriana era popular, abusada, garota olimpíada, nitidamente mais madura do que a pirralhada (e mais alta). Convivia com os caras que eu odiava, que eram exatamente os mais populares e chamados por nome e sobrenome. Adriana me chamava assim: AHMED HAMDAN. E isso para mim era bem importante e me dava mais segurança. No mais era o vôlei, os estudos (que sempre curti e continuo) e as baladas (que sempre curti e...). E pra que mesmo este relato? Ah...é minha fita passando, como diz o clichê, após ter passado a segundona de feriado na tarefa. Enfim, bora falar? Bora falar sobre suicídio, angústia, dor, tesão, conflito e, claro, muita bobagem? Acho que é assim que algo do intraduzível pode se transformar em palavra e, quem sabe, até impedir uma passagem ao ato. Quem sabe até acessar algo ali próximo do desejo, este real que nos assola e do qual temos pouquíssimo ou nenhum sinal de conhecimento. Desvendar, entender, compreender, representar? Ouvi falar por aí que é do campo do impossível.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
És
Em conversa com uma sobrinha que está "presa" em casa há 7 dias, em Vitória:
Bacana seria se todo mundo fosse pra rua e desse as mãos. Entender que todos temos o espírito santo e profano ao mesmo tempo. O que muda são apenas as situações. Somos parte de uma mesma cultura, que saqueia o outro e a si mesmo o tempo todo. E sobre colocar lençóis brancos na janela, só vale se lembrarmos que a paz do branco só acontece se for mesmo a união de TODAS as cores. A partir daí a gente pode tentar pensar uma realidade menos angustiante.
sábado, 11 de junho de 2016
Gaia
Acabei de dar parabéns para a minha mãe.
D. Léia, filha do Alcino "turco" e da D. Inhazinha, D. Léia "do" Calais.
Pariu 12, criou 10.
Me mimou como caçulinha.
Cortei a onda dela aos 12.
Descolei, mas não muito.
Só o suficiente para ter a relação saudável que temos.
Falei com ela que escutei uma mulher indígena, em uma palestra, dizendo que a terra tem um poder imenso de cura.
Vejo minha mãe assim: ligada à terra, abraçada à natureza, comendo e colhendo diariamente o que planta.
Atualmente ela acha minhas falas um pouco enigmáticas, pintam umas dúvidas, a confundo entre casos e argumentos.
Já que comecei, posso até tentar resumir assim:
Mãe, que bom seria que todos tivessem direito à terra para usufruir dessa cura.
E que sou de muita sorte.
Tenho uma mãe Gaia.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
A parte que ME cabe
Ainda mexidos e tentados a entender melhor o que aconteceu no Brasil e no mundo após as Manifestações de 2013, buscamos uma mínima ou inédita compreensão do papel e da importância de cada Sujeito neste processo.
Nas ruas ou diante de suas telas cada vez mais interativas, pessoas se pronunciam como nunca pelas diversas janelas ou marcando presença corporal em blocos de manifestantes, de foliões, de moradores de rua, ocupando espaços que anteriormente pareciam não serem delas. Daqueles que só levam a roupa do corpo àqueles em que as roupas não têm mais espaço para serem guardadas, adoradores do passado ou do futuro gritam e pedem respostas para algum conforto maior no presente.
O gozo por meio do consumo virou ordem e, em um momento em que a festa chega ao fim, as pessoas se perguntam qual o trajeto, para que parte da cidade caminharão e onde depositarão os restos de um banquete que mal começou, mas parece que tem seus minutos contados para acabar.
E não há mais ninguém para limpar, a não ser você, os seus próprios dejetos.
Continuaremos pela busca de identificar sujeitos capazes de tomar o espaço público e transformá-lo em uma festa sem área vip nem pulseiras ou catracas para o acesso. E debateremos sobre o que resulta deste encontro de corpos historicamente treinados para estarem em ambientes separados ou em funções claramente pré-estabelecidas: está servido e/ou a serviço?
O movimento não cessa. Aqui e lá fora "não cansa de não se entender". E é por isso que este trabalho de investigação será sempre tão instigante e inesgotável. Por meio de sintomas que estão no lugar e no tempo em que vivemos, podemos ter a certeza de que há algo do incompreensível em nossa construção que nos trouxe até aqui. E que temos muito que percorrer para chegar, talvez, ao mesmo lugar. Este que jamais será o mesmo.
domingo, 25 de janeiro de 2015
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Para Casa Natora (na-tora.blogspot.com.br)
E tudo começa pela falta
A falta faz buscar um lugar.
E nesta casa quem pode entrar?
Materiais descartados de outras obras.
Uma obra feita de obras outras.
Obras criadas por seres não descartáveis.
Não faltam motivos para não entender.
Mas como o nosso desejo deve ser algo que passa longe de uma compreensão, somos todos convidados.
A casa é como retalho de vidas.
E não uma única vida: a vida que está à volta.
A vida de todos: o vaso de um, a esquadria de outro, o quadro da história de alguém.
Com trabalho e desejo, foi crescendo e tomando forma.
Colocando coisa, colocando gente.
Cachorro, planta, banheira, chão e piscina.
Quadro, arte, cama e fogão.
Sentimento e afeto: teto.
Água e luz: que luz!
Mirante-céu.
O dia foi caindo e a gente foi conversando coisas mais sérias.
Até chegar a alguma compreensão que ainda não havia virado linguagem.
Um dia que se vai junto a uma angústia.
Um buraco no meio de tanta coisa cheia.
Um zero cercado por uma linha imaginária.
Um vazio lotado de significado.
Um tanto bom que não passa da conta.
Algo que protege sem aprisionar.
Um sujeito que surge em meio a tanto querer antes intraduzível.
Significando algo do que mais desejamos.
E não precisa concluir.
Aqui, estamos sujeitos.
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Aos alemães.
"No entanto, essa vitória da castidade não era mais que aparente, não passava de uma vitória de Pirro, pois a potência do amor não se deixava reprimir nem violentar, o amor oprimido não estava morto, não; vivia, continuava, nas trevas, no mais profundo segredo, a almejar a sua realização, rompia o círculo mágico da castidade e ressurgia, ainda que sob forma metamorfoseada, dificílima de reconhecer... E qual era, afinal, a forma e a máscara que usava o amor vedado e oprimido na sua reaparição? Eis o que disse o Dr. Krokowski:
– Sob a forma de doença. O sintoma da doença nada é senão a manifestação disfarçada da potência do amor; e toda doença é apenas amor transformado. "
Thomas Mann, em A Montanha Mágica, concluído em 1924.
terça-feira, 8 de julho de 2014
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Manifestação Popular Horizontal
Em um mercado no centro de uma capital nordestina converso com um morador de rua. Eu sentado à mesa, tomando uma cerveja. Ele pedindo algo: uma moeda, um cigarro, um gole de bebida em seu copo plástico, uma atenção. Dei o gole e a atenção. O restante, por motivos diferentes do dele (não havia caixas eletrônicos por perto nem cigarros à venda), eu não tinha. Estávamos quites.
Senti uma vontade tremenda de participar da Marcha das Vadias em Belo Horizonte. Havia descoberto recentemente que, para ser feminista, não precisava ser mulher. E aquilo do feminismo me atraía muito. Lutar pelo direito que dizem que eu não tenho. Lutar pelo poder sobre o meu corpo. Pela decisão. Lutar na rua. Livre. E junto a pessoas que, se não se sentem livres, lutam para se sentir mais um pouquinho, a cada passo.
Explodem nos meios de comunicação protestos urbanos em todo o país. O interesse da mídia tradicional cresce junto às consequências que estes trazem para a sociedade de consumo: trânsito infernal, depredação do patrimônio público e privado, envolvimento de estudantes de classe média, abuso do poder policial e ataques à própria mídia, representada por seus repórteres.
Além de gás lacrimogênio, muitas dúvidas no ar. Aceito o convite feito por mim mesmo de ir à manifestação. Cadê? Chego atrasado, já foram. Um pequeno grupo dialoga e cria estratégias para fechar a principal praça da cidade. Como assim? Sem noção. Escuto conversas absurdas, para o meu mundo higiênico. Parar o trânsito, enfrentar a polícia, bater, apanhar. Invadir o inconstitucional Território Fifa. Isso não exist...ia.
De repente formam um cordão humano e fecham a 1ª avenida. A 2ª. A praça. Uau! Vamos caminhar. Andar sobre pontes e viadutos em um movimento de liberdade. Então a cidade é minha? Posso pular esta mureta? Posso sentar no asfalto. Posso sujar a roupa? Não vou ser roubado? Preso?
E se formos até o Mineirão andando? E se a polícia nos atacar? E se quebrarem tudo? E se morrer alguém?
Ir adiante sentindo a enorme diferença entre passar de carro por uma avenida e andar sobre ela. Ou com ela, pela 1ª vez, talvez virgem. Surfar, olhar cada canto, cada cor de olho, que nas propagandas são apenas azuis, das pessoas que moram por ali mesmo. Que oferecem água ou maconha. A água é grátis, o copo é coletivo. Vai querer? Sim. Com cuspe e sem culpa. E a maconha está mais barata do que a passagem, fala a quase ainda criança estrategicamente colocada sobre a passarela.
Uma mulher, à margem, pede para um rapaz tirar a camisa da cabeça. Ele diz que não, que esta decisão era dele. Dos mascarados, só podemos diferenciar as cores dos olhos.Que são muitas.
Cura Gay? É o meu pau duro. Diz o rapaz, para todo mundo ler e ouvir, em seu cartaz.
Estou sob o viaduto São Francisco. Olho para trás e vejo o belo horizonte, pela primeira vez, horizontalmente. Sempre achei aquela vista linda, mas a pressa era demais. Estava sempre ocupado e não tinha tempo para enxergar.
Ver? Só do alto.
Chegando ao front, escuto pessoas gritando: não sobe no viaduto! Eu subo. Camarote vip com pulseirinha que vai ficar para o resto na vida em meu braço. Fogo, correria, pedras de cá, bombas de lá. E qual é mesmo o placar do jogo?
Alguém morreu? Caiu do viaduto José de Alencar pra eles. Douglas Henrique para nós.
Anoitecendo, um medo. Volta como? "Gangues" passando. São donos da Antônio Carlos, não? Vivem a avenida, não apenas passam sobre ela. "No meio daquele tanto de pobre", como já ouvi em uma reunião de trabalho. "Pra que colocar outdoor ali?" Só serve para esconder a favela.
O transporte público e gratuito era apenas para quem tivesse ingresso de R$200, R$300 para o jogo da Copa das Manifestações. Pra nós, nada. Avenida fechada, no buses. Sentimento de que não foi convidado mesmo para a festa. Se fodeu e não recebeu a grana do táxi. Nem do busão.
Vejo policiais do alto de um morro jogando bombas nas pessoas. Pareciam crianças se divertindo. Brincando de guerra. Corri da cena assustadoramente.
Alguém curtiu Assembleia Popular Horizontal no Facebook. Curti também. Marcaram debaixo do viaduto Santa Tereza e eu, mais uma vez, fui.
Quanta gente! Quantos loucos e tudo muito organizado. Sinais não sonoros para aplaudir, focar, pedir que conclua. Cronômetros, tempo e inscrições organizadas. Metodologia de anarquistas? Assembleia Popular Horizontal. 2 horas em pé, não me vi capaz de ficar sentado no chão. Ia doer mais. Fui embora. Acho que o evento durou umas 5, 6 horas.
Lá definiram acompanhar a próxima sessão da Câmara Municipal devido à importância da pauta. Foram e por lá ficaram. Exigiam ser ouvidos pelo prefeito, que parece não ouvir ninguém que não seja da sua turma. Fui. Pessoas acampadas em barracas organizadas. Lá dentro mais reuniões, discussões, diálogo. Regras claras. Bebida, cigarro, bate-papo só do lado de fora.
Destaquei um adolescente de uns 14 anos, quase ainda criança, no meio das pessoas. Falei com a minha amiga Lu, do Baixo-Bahia Futebol Social: sei quem é este menino. É o sobrinho da "minha" faxineira. Sei pela descrição que ela faz do sobrinho. Aquilo mexe com a minha curiosidade. Esta minha, de verdade.
Outra amiga sugere: vá ao banheiro. Está lindo!
Fui e estava: pichações com quase todo tipo de pensamento libertário que eu conhecia e não conhecia. Arte urbana. Lindo e cheio de sentido. Ser lindo é ser cheio de sentido, para mim. O banheiro não tinha gênero. E estava completamente limpo e cheiroso.
O menino estava lá. Dançando e cantando (ou dublando) alguma Byoncé. Tinha as unhas pintadas de vermelho, uma calça bem apertada e uma camisa amarela, de time de futebol. "Lu, pergunta o nome dele!" Eu pedia. Ela questiona se é muito importante para mim. E sai. Eu pergunto a ele: qual o seu nome? Ele responde com a senha mágica que queria ouvir. Estava lá, no banheiro, sem gênero. Limpo e cheiroso. Longe do preconceito da sua família que o pinta de outra forma.
Coisas incríveis acontecem no inusitado.
A ocupação resiste. A ocupação consegue a reunião. Elege representantes incrivelmente articulados. Tem gente de classe média, tem morador de terreno invadido. Tem de 18 e 28. Tem preto, tem branco. Tem cor. Puxa para um vermelho sangue, às vezes com tarja preta. Mais arco-íris do que verdeamarelo. Lilás do feminismo. Laranjas do Movimento Fora Lacerda. Este foge da reunião. Gritam "Poder Para o Povo" com o braço esquerdo em riste. Eles sobem nas mesas, deitam nas cadeiras e dizem que ficam enquanto o outro não voltar e continuar o diálogo. Calça jeans e camiseta, cabelos perfeitamente despenteados, raspados, crespos, 2 bonés verde-exército com a bandeira de Cuba. Tênis de skatista. Dicas de moda para enfrentar dias de batalha.
Conseguiram parte do que queriam. E teriam que decidir se iriam desocupar. Após 8 dias morando lá, os desgastes eram visíveis. Pessoas gripadas pelo frio ou pelo ar-condicionado no talo, durante a noite. Desconforto, intensidade. Decidiu-se, após argumentos apresentados, pela saída no dia seguinte. Partindo em marcha para uma grande festa já programada para o domingo.
Ali naquele pedaço de rua, onde moram mendigos e pobres pegam ônibus e metrô. Entre a Praça da Estação e o Viaduto Santa Tereza, que para mim já estavam batizados de praia. E ponte.
Uma megafesta com muitas pessoas e atrações. Nenhuma estrutura. Nem precisa. Incrível é não precisar de nada. Corpos juntos, alegres. Ideias interessantes. Vidas alternativas. Apresentações, balanços, piscinas de plástico, discos de vinil, badulaques à venda. Ambulantes possíveis e presentes. Estes mesmos que já foram expulsos de tantos outros eventos da cidade. Até o Obama, fake, compareceu.
Nestes espaços, há sempre espaço para o maluco. Ele não é expulso. Tem sempre um por ali dando o seu recado.
Os encontros continuaram a acontecer, sempre mantendo seus códigos e propostas. Após a euforia midiática e o fim de uma ação corajosa, menos pessoas apareciam nas assembleias. Muito já estava organizado: grupos de trabalho para discussão e planejamento de propostas, 11 GTs, tinham suas agendas próprias. Aulas sobre temas de interesse aconteceram ao ar livre. Houve um momento de interseção com o movimento sindical, já que este convocou uma marcha para o dia 11 de julho. Foi interessante perceber como se deu a união das duas linguagens. Uma muito nova e outra já com muita experiência e vícios acumulados. Confesso que senti um certo desconforto. Uma diferença nos corpos, na motivação. Um movimento calejado que enxergou no outro uma possibilidade de oxigenação, mas que não o alcançava em questões essenciais, como a sensualidade.
A ideia é o sujeito se apresentar sem moralismo, sem machismo, sem racismo. Sen...sualismo.
Uma das lutas dos sindicalistas era contra a PEC que possibilita, com mais facilidade, a contratação de trabalhadores terceirizados pelas empresas. E citam que este fator tirou o poder de estar juntos, unidos na mesma causa. Que a terceirização tirou deles o próprio chão. Entre tantas críticas e já passados alguns anos de seu surgimento, podemos concluir que a internet é a grande responsável por trazer de volta este lugar de encontro e diálogo entre as pessoas. Lugar onde a comunicação pode se dar de maneira ativa e democrática. Lugar que tira as pessoas do lugar.
No Facebook, palavra mais falada atualmente do que Rede Globo, encontramos e reencontramos pessoas. Conhecemos um pouco do que pensam, por ser um lugar de opinião. Curtir isso e não aquilo já emite muitos sinais. Compartilhar ainda é mais forte. Preencher aquele espaço vazio pode ser considerado até arriscado. Posso dizer que reencontramos e escolhemos a nossa turma. E seguimos agora com ela, sabemos que perdemos muitos amigos que nos achavam ou que achávamos o máximo, antes de conhecê-los verdadeiramente, no Orkut, no Twitter, no Face. Pode ser até triste, mas as redes sociais nos permitiram compreender melhor as posições de pessoas que não conseguíamos decifrar no mundo real.
Junto ao nosso encontro real nas ruas, em que estar de corpo presente, escrever um cartaz e caminhar com ele levantado já comunicava, havia uma grande câmera nos filmando o tempo todo, em tempo real. Não a da grande mídia porque esta fazia o recado perder todo o sentido. A cobertura dos telejornais me fazia pensar que eu estava em um outro lugar, não aquele do qual falavam. Não as câmeras instaladas nas ruas que nos vigiam incessantemente. Mas uma câmera Ninja, capaz de estar presente desde um intervalo para o café entre uma pauta e outra até nos momentos em que as bombas e balas estavam explodindo no front. Transmitindo aulas, palestras, invasões, momentos tensos, saraus, bate-papos informais. O ninja está ali. Está não: o ninja é. O ninja não cobre o evento, como a imprensa tradicional. Ele faz parte do evento. É manifestante. Um retrato sem cortes e sem edição do que está acontecendo. Em um momento em que a imprensa sofre de um descrédito absurdo e é bombardeada nas redes sociais. A mídia Ninja quebra com a relação de poder da informação, vinculada aos grandes grupos e seus patrocinadores. Um celular, um laptop, uma mochila e muita, muita coragem. Claro que era esta última parte da receita que estava faltando em nossos colegas da comunicação para que algo de novo surgisse. Eles viraram cúmplices dos manifestantes e garantiram a segurança de que o que será reportado é nada menos do que a realidade. Quem os assiste também virou cúmplice: Fica aí, um ninja falava. "Vocês, 10 mil que estão nos assistindo pela Pós-TV são a garantia de que nada errado vai acontecer." Na relação mídia x espectador, agora este segundo passa a ter um papel fundamental. Tenho orgulho quando o ninja está no meu ângulo de visão, perto de mim ou quando, sem querer, esbarra em meu corpo. Ou me filma, ou me clica. Aquela foto será eterna em minha mente. E nem quero mostrar para ninguém. Como li em uma resenha: "Anota aí, eu sou ninguém." E nada como se sentir ninguém para ter a certeza de ser uma grande pessoa. Mas quando eu crescer, eu quero ser NINJA. Mesmo após tanta polêmica.
Em minha cabeça volta a conversa que tive com aquele morador de rua no mercado de Aracaju. Ele me conta coisas de sua vida, que tem família com condições, que foi trabalhador, mas que por ter perdido o emprego e por uma dificuldade de se relacionar em casa, se jogou no mundo das ruas e das drogas. E que agora vivia assim. Tudo que ele falava, parecia de uma sinceridade pura. Por trás dos cheiros e do pó havia um homem bonito, forte, cheio de vida. Ele me disse que tinha muita vergonha daquela situação e isso doeu profundamente em mim. Por que ele havia de ter muita vergonha e eu não? Onde está esta divisão que estabeleceu que eu era o turista vencedor e ele o drogado inútil? Mas aí, rapidamente me veio a certeza de que esta divisão não existe, que éramos uma coisa só, como vândalos e manifestantes, não como a mídia e o estabelecimento querem. Então eu respondi a ele: não fale assim...quer dizer, fale. Só quero dizer que eu também tenho muita vergonha. E quem não tem não passa de um sem-vergonha.
terça-feira, 16 de abril de 2013
Paradigma do Mosquito
Acho que se a gente seguir o exemplo do mosquito da dengue vai dar mais certo: trabalhar em 2 turnos, das 8 às 10h, das 16 às 18h. E ainda tomar conta do mercado.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Bad Reality
Entra-se pelo caminho mais fácil.
A tv, a novela, a música que esta impõe.
A coisa alegrinha, o axé e o bate-estaca.
O filme é de ação. Você não.
Não temos paciência para escutar, pensar, elaborar.
Isso é coisa de gente chata.
Estamos sempre sambando.
Tentar achar um resultado novo é muito complicado.
Melhor deixar como está, "é assim mesmo".
A coisa se repete incessantemente nas falas.
Nas atitudes e nos resultados.
E aí passamos a nossa vida quase toda trancados em um escritório.
Sem "tempo" para nada. Ainda achando isso bonito, vendável.
Convivemos com pessoas que nos fazem um mal extremo durante anos.
E tentamos nos anestesiar tomando uma dose de alguma droga qualquer.
Anfetaminas, álcool ou BBB.
Até mesmo produtos gourmet.
Quem sabe um carro?
Loucas por bolsas e sapatos, colecionam frustrações dentro de um armário de solidão.
Ou tudo junto e misturado, como se repete por aí.
Mais uma vez, quase sem pensar.
Não escolhemos. Escolhem para nós.
Sem conhecermos nosso próprio desejo,
entramos onde um outro nos manda.
E como não enxergamos a saída,
vamos morrendo sufocados.
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