domingo, 12 de novembro de 2017

A penas

Não tenho vontade de sair. Não tenho forças, meu corpo dói, meu joelho berra. Quero falar, mas não tem ninguém que mereça a terefa de escutar. Quero enviar uma mensagem para a minha analista. Quero mais do que uma sessão de uma análise que já teve o seu fim. Não quero estar no Brasil, nem pensar. Não quero ser humano, está difícil defender a espécie. Quero distribuir o que não sei para aquele que não quer. Quero tratar do impossível, dizer o indizível. Quero o real bordejado com algo bem do interior, mineiro de preferência. Não quero notícias: dos portais, de doenças, de morte, do mercado, de famosos, do esporte. Quero o nada esvaziar. Descompleta-me. Quero parar de sentir vergonha do meu país e deixar as pessoas falarem o que bem desintendem. Não quero ouvir. Quero parar e seguir. E escrever o que não cessa de não se escrever. Quero a penas, escrever. Sob efeito de 2 dias consecutivos de Jornada do Aleph - Por que a psicanálise? Agora posso continuar.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Deixe Levar.

Deixe o capitalista tamponar a dor com bens. Deixe o sócio se apropriar de tudo. Deixe os políticos roubarem pra lá. Deixe os ratos. Deixe a polícia policiar. Deixe os ignorantes serem donos da verdade. Deixe os títulos para os titulares. Deixe os palestrantes exercerem a falta de talento nas festas de família. Deixe o publicitário mostrar sua pobre visão de vida na mesa de bar. Eles não têm outro lugar. Deixe o pai bravejar. Deixe a mãe pôr panos quentes. Deixe o pastor pastar. Deixe os juízes a julgar. Deixe a propina rolar. Deixe levar tudo. Deixe os ratos. Deixe pra lá. Deixe a desejar. E apenas deixe o seu desejo pulsar. Este ninguém pode levar.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Em nome do Pai.

O velório foi enxuto: pouco tempo, as lágrimas na quantidade certa. A tristeza estava ali, mas não transbordou. Muita dor, pouco excesso. Muita lembrança e a sensação de que ainda era cedo. O morto era reservado até na hora da morte. Os filhos em volta eram 6. O sétimo faltou. Para que ele fosse enterrado, tivemos que seguir em carreata pela cidade tipicamente do interior, passando pela praça central, claro. Enquanto o corpo seguia em direção ao cemitério, o corpo do 7º filho, ainda vivo e caminhando, subia a rua principal da cidade, na direção contrária. Sem nem se dar conta de que quem agora ia fugir pra sempre era o próprio pai.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Tape #14

Vou confessar que vi a série 13 Reasons Why só para ler o texto com aviso de #SPOILER da Adriana Pinheiro, que não tem a opção Compartilhar. Hoje, pra mim, a ideia é pensar muito e não fechar, concluir. E falar muito, muito sobre as dores e assunto doídos, incluindo suicídio, sem se esquecer das delícias, claro! Daí já acho que vale a pena a produção, o tempo "gasto" vendo e justifica o sucesso. Quando vi que a "Kidly" falou sobre, pronto, era a amarração que faltava para me motivar. Me vi naquele ambiente colegial, mas eu era um ser dentro-fora (êxtimo). E isso era ok para mim. Tinha meus sérios treinos de vôlei, os amigos mais velhos e um pouco mais maduros, ou seja, já era também de uma balada fora dali. Sem deixar de ser dali, claro, de ser um estudante aplicado adolescendo. Adriana era popular, abusada, garota olimpíada, nitidamente mais madura do que a pirralhada (e mais alta). Convivia com os caras que eu odiava, que eram exatamente os mais populares e chamados por nome e sobrenome. Adriana me chamava assim: AHMED HAMDAN. E isso para mim era bem importante e me dava mais segurança. No mais era o vôlei, os estudos (que sempre curti e continuo) e as baladas (que sempre curti e...). E pra que mesmo este relato? Ah...é minha fita passando, como diz o clichê, após ter passado a segundona de feriado na tarefa. Enfim, bora falar? Bora falar sobre suicídio, angústia, dor, tesão, conflito e, claro, muita bobagem? Acho que é assim que algo do intraduzível pode se transformar em palavra e, quem sabe, até impedir uma passagem ao ato. Quem sabe até acessar algo ali próximo do desejo, este real que nos assola e do qual temos pouquíssimo ou nenhum sinal de conhecimento. Desvendar, entender, compreender, representar? Ouvi falar por aí que é do campo do impossível.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

És

Em conversa com uma sobrinha que está "presa" em casa há 7 dias, em Vitória: Bacana seria se todo mundo fosse pra rua e desse as mãos. Entender que todos temos o espírito santo e profano ao mesmo tempo. O que muda são apenas as situações. Somos parte de uma mesma cultura, que saqueia o outro e a si mesmo o tempo todo. E sobre colocar lençóis brancos na janela, só vale se lembrarmos que a paz do branco só acontece se for mesmo a união de TODAS as cores. A partir daí a gente pode tentar pensar uma realidade menos angustiante.

sábado, 11 de junho de 2016

Gaia

Acabei de dar parabéns para a minha mãe. D. Léia, filha do Alcino "turco" e da D. Inhazinha, D. Léia "do" Calais. Pariu 12, criou 10. Me mimou como caçulinha. Cortei a onda dela aos 12. Descolei, mas não muito. Só o suficiente para ter a relação saudável que temos. Falei com ela que escutei uma mulher indígena, em uma palestra, dizendo que a terra tem um poder imenso de cura. Vejo minha mãe assim: ligada à terra, abraçada à natureza, comendo e colhendo diariamente o que planta. Atualmente ela acha minhas falas um pouco enigmáticas, pintam umas dúvidas, a confundo entre casos e argumentos. Já que comecei, posso até tentar resumir assim: Mãe, que bom seria que todos tivessem direito à terra para usufruir dessa cura. E que sou de muita sorte. Tenho uma mãe Gaia.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A parte que ME cabe

Ainda mexidos e tentados a entender melhor o que aconteceu no Brasil e no mundo após as Manifestações de 2013, buscamos uma mínima ou inédita compreensão do papel e da importância de cada Sujeito neste processo. Nas ruas ou diante de suas telas cada vez mais interativas, pessoas se pronunciam como nunca pelas diversas janelas ou marcando presença corporal em blocos de manifestantes, de foliões, de moradores de rua, ocupando espaços que anteriormente pareciam não serem delas. Daqueles que só levam a roupa do corpo àqueles em que as roupas não têm mais espaço para serem guardadas, adoradores do passado ou do futuro gritam e pedem respostas para algum conforto maior no presente. O gozo por meio do consumo virou ordem e, em um momento em que a festa chega ao fim, as pessoas se perguntam qual o trajeto, para que parte da cidade caminharão e onde depositarão os restos de um banquete que mal começou, mas parece que tem seus minutos contados para acabar. E não há mais ninguém para limpar, a não ser você, os seus próprios dejetos. Continuaremos pela busca de identificar sujeitos capazes de tomar o espaço público e transformá-lo em uma festa sem área vip nem pulseiras ou catracas para o acesso. E debateremos sobre o que resulta deste encontro de corpos historicamente treinados para estarem em ambientes separados ou em funções claramente pré-estabelecidas: está servido e/ou a serviço? O movimento não cessa. Aqui e lá fora "não cansa de não se entender". E é por isso que este trabalho de investigação será sempre tão instigante e inesgotável. Por meio de sintomas que estão no lugar e no tempo em que vivemos, podemos ter a certeza de que há algo do incompreensível em nossa construção que nos trouxe até aqui. E que temos muito que percorrer para chegar, talvez, ao mesmo lugar. Este que jamais será o mesmo.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Sede

Parabéns à cidade que surtou gritando que o que mata a sede é a grana.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Para Casa Natora (na-tora.blogspot.com.br)

E tudo começa pela falta A falta faz buscar um lugar. E nesta casa quem pode entrar? Materiais descartados de outras obras. Uma obra feita de obras outras. Obras criadas por seres não descartáveis. Não faltam motivos para não entender. Mas como o nosso desejo deve ser algo que passa longe de uma compreensão, somos todos convidados. A casa é como retalho de vidas. E não uma única vida: a vida que está à volta. A vida de todos: o vaso de um, a esquadria de outro, o quadro da história de alguém. Com trabalho e desejo, foi crescendo e tomando forma. Colocando coisa, colocando gente. Cachorro, planta, banheira, chão e piscina. Quadro, arte, cama e fogão. Sentimento e afeto: teto. Água e luz: que luz! Mirante-céu. O dia foi caindo e a gente foi conversando coisas mais sérias. Até chegar a alguma compreensão que ainda não havia virado linguagem. Um dia que se vai junto a uma angústia. Um buraco no meio de tanta coisa cheia. Um zero cercado por uma linha imaginária. Um vazio lotado de significado. Um tanto bom que não passa da conta. Algo que protege sem aprisionar. Um sujeito que surge em meio a tanto querer antes intraduzível. Significando algo do que mais desejamos. E não precisa concluir. Aqui, estamos sujeitos.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Aos alemães.

"No entanto, essa vitória da castidade não era mais que aparente, não passava de uma vitória de Pirro, pois a potência do amor não se deixava reprimir nem violentar, o amor oprimido não estava morto, não; vivia, continuava, nas trevas, no mais profundo segredo, a almejar a sua realização, rompia o círculo mágico da castidade e ressurgia, ainda que sob forma metamorfoseada, dificílima de reconhecer... E qual era, afinal, a forma e a máscara que usava o amor vedado e oprimido na sua reaparição? Eis o que disse o Dr. Krokowski: – Sob a forma de doença. O sintoma da doença nada é senão a manifestação disfarçada da potência do amor; e toda doença é apenas amor transformado. " Thomas Mann, em A Montanha Mágica, concluído em 1924.