terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Nós

Nada de nós sem nós. Ficou ali naquele imaginário do outro, compartilhado por um simbólico ordinário, comum e ordeiro, cordeiro, empobrecido. Algo que tem pena do outro e, ao mesmo tempo, goza com o seu sofrimento. O seu aí cabe muito bem, pois é seu e do outro ao mesmo tempo e a gente sabe disso. E cadê o real? Cadê aquilo que fez pulsar, fez ir, atravessar oceanos? Onde estava o sujeito? A sujeita. O que a sujeita tinha de único e lindo a dizer para além dos clichês? Para além no sentido de trans, que é o significado da palavra. Ficou ali, na mesma. Cis: do mesmo lado de sempre. Quando iremos além? A partir de quando começaremos esta viagem? Precisaremos nos matar quantas vezes mais, inclusive de vergonha e constrangimento? Isso: faltaram nós. Faltou nós. Cada um de nós.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Mas

Natal é bem chato, mas tem essa coisa boa do encontro. E, ah, aquela pessoa é insuportável, mas sabe que me surpreendi com a educação? E acaba que é uma ideia muito legal, mas foi meio mal executada. O trabalho agarrou numa bobagem, mas quando sair dessa tenho certeza de que vai dar certo. Nem vou falar de política, apesar de ser tão importante. Vou falar sim, não dá para beijar boca vazia de palavras. Tem gente que vive assim: só pelo olho. Capturado achando que captura. Dá pra engolir não. As pinturas nas laterais dos prédios da cidade estão ficando lindas, mas são empenas cegas: só enxergam os que querem ver. Mostrar a bunda de celulite é muito educativo, mas contratar abusador é muito desaviso. O abusador não tratou bem a bunda cheia de celulite. A música? Sei não. A gente acaba acostumando. Mas tem que beber bastante, que também enche. Bora de água de coco e açaí natural do Pará. Amor e amora. Há consenso: a Pablo Vittar canta muito mal, mas arrasta multidões para o seu canto. Que nem o Chico Buarque. Mas se você mora no Leblon, tudo bem. Só leva xingo de coxinha. E ainda dizem que não há um significante que determine o sujeito. Isso é enigmático, mas também pode ser outra coisa. Pode ser que seja a coisa. Aquilo que foi perdido lá bem no início. Que nem existe, mas a gente fica aí a procurar.

domingo, 12 de novembro de 2017

A penas

Não tenho vontade de sair. Não tenho forças, meu corpo dói, meu joelho berra. Quero falar, mas não tem ninguém que mereça a terefa de escutar. Quero enviar uma mensagem para a minha analista. Quero mais do que uma sessão de uma análise que já teve o seu fim. Não quero estar no Brasil, nem pensar. Não quero ser humano, está difícil defender a espécie. Quero distribuir o que não sei para aquele que não quer. Quero tratar do impossível, dizer o indizível. Quero o real bordejado com algo bem do interior, mineiro de preferência. Não quero notícias: dos portais, de doenças, de morte, do mercado, de famosos, do esporte. Quero o nada esvaziar. Descompleta-me. Quero parar de sentir vergonha do meu país e deixar as pessoas falarem o que bem desintendem. Não quero ouvir. Quero parar e seguir. E escrever o que não cessa de não se escrever. Quero a penas, escrever. Sob efeito de 2 dias consecutivos de Jornada do Aleph - Por que a psicanálise? Agora posso continuar.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Deixe Levar.

Deixe o capitalista tamponar a dor com bens. Deixe o sócio se apropriar de tudo. Deixe os políticos roubarem pra lá. Deixe os ratos. Deixe a polícia policiar. Deixe os ignorantes serem donos da verdade. Deixe os títulos para os titulares. Deixe os palestrantes exercerem a falta de talento nas festas de família. Deixe o publicitário mostrar sua pobre visão de vida na mesa de bar. Eles não têm outro lugar. Deixe o pai bravejar. Deixe a mãe pôr panos quentes. Deixe o pastor pastar. Deixe os juízes a julgar. Deixe a propina rolar. Deixe levar tudo. Deixe os ratos. Deixe pra lá. Deixe a desejar. E apenas deixe o seu desejo pulsar. Este ninguém pode levar.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Em nome do Pai.

O velório foi enxuto: pouco tempo, as lágrimas na quantidade certa. A tristeza estava ali, mas não transbordou. Muita dor, pouco excesso. Muita lembrança e a sensação de que ainda era cedo. O morto era reservado até na hora da morte. Os filhos em volta eram 6. O sétimo faltou. Para que ele fosse enterrado, tivemos que seguir em carreata pela cidade tipicamente do interior, passando pela praça central, claro. Enquanto o corpo seguia em direção ao cemitério, o corpo do 7º filho, ainda vivo e caminhando, subia a rua principal da cidade, na direção contrária. Sem nem se dar conta de que quem agora ia fugir pra sempre era o próprio pai.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Tape #14

Vou confessar que vi a série 13 Reasons Why só para ler o texto com aviso de #SPOILER da Adriana Pinheiro, que não tem a opção Compartilhar. Hoje, pra mim, a ideia é pensar muito e não fechar, concluir. E falar muito, muito sobre as dores e assunto doídos, incluindo suicídio, sem se esquecer das delícias, claro! Daí já acho que vale a pena a produção, o tempo "gasto" vendo e justifica o sucesso. Quando vi que a "Kidly" falou sobre, pronto, era a amarração que faltava para me motivar. Me vi naquele ambiente colegial, mas eu era um ser dentro-fora (êxtimo). E isso era ok para mim. Tinha meus sérios treinos de vôlei, os amigos mais velhos e um pouco mais maduros, ou seja, já era também de uma balada fora dali. Sem deixar de ser dali, claro, de ser um estudante aplicado adolescendo. Adriana era popular, abusada, garota olimpíada, nitidamente mais madura do que a pirralhada (e mais alta). Convivia com os caras que eu odiava, que eram exatamente os mais populares e chamados por nome e sobrenome. Adriana me chamava assim: AHMED HAMDAN. E isso para mim era bem importante e me dava mais segurança. No mais era o vôlei, os estudos (que sempre curti e continuo) e as baladas (que sempre curti e...). E pra que mesmo este relato? Ah...é minha fita passando, como diz o clichê, após ter passado a segundona de feriado na tarefa. Enfim, bora falar? Bora falar sobre suicídio, angústia, dor, tesão, conflito e, claro, muita bobagem? Acho que é assim que algo do intraduzível pode se transformar em palavra e, quem sabe, até impedir uma passagem ao ato. Quem sabe até acessar algo ali próximo do desejo, este real que nos assola e do qual temos pouquíssimo ou nenhum sinal de conhecimento. Desvendar, entender, compreender, representar? Ouvi falar por aí que é do campo do impossível.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

És

Em conversa com uma sobrinha que está "presa" em casa há 7 dias, em Vitória: Bacana seria se todo mundo fosse pra rua e desse as mãos. Entender que todos temos o espírito santo e profano ao mesmo tempo. O que muda são apenas as situações. Somos parte de uma mesma cultura, que saqueia o outro e a si mesmo o tempo todo. E sobre colocar lençóis brancos na janela, só vale se lembrarmos que a paz do branco só acontece se for mesmo a união de TODAS as cores. A partir daí a gente pode tentar pensar uma realidade menos angustiante.

sábado, 11 de junho de 2016

Gaia

Acabei de dar parabéns para a minha mãe. D. Léia, filha do Alcino "turco" e da D. Inhazinha, D. Léia "do" Calais. Pariu 12, criou 10. Me mimou como caçulinha. Cortei a onda dela aos 12. Descolei, mas não muito. Só o suficiente para ter a relação saudável que temos. Falei com ela que escutei uma mulher indígena, em uma palestra, dizendo que a terra tem um poder imenso de cura. Vejo minha mãe assim: ligada à terra, abraçada à natureza, comendo e colhendo diariamente o que planta. Atualmente ela acha minhas falas um pouco enigmáticas, pintam umas dúvidas, a confundo entre casos e argumentos. Já que comecei, posso até tentar resumir assim: Mãe, que bom seria que todos tivessem direito à terra para usufruir dessa cura. E que sou de muita sorte. Tenho uma mãe Gaia.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A parte que ME cabe

Ainda mexidos e tentados a entender melhor o que aconteceu no Brasil e no mundo após as Manifestações de 2013, buscamos uma mínima ou inédita compreensão do papel e da importância de cada Sujeito neste processo. Nas ruas ou diante de suas telas cada vez mais interativas, pessoas se pronunciam como nunca pelas diversas janelas ou marcando presença corporal em blocos de manifestantes, de foliões, de moradores de rua, ocupando espaços que anteriormente pareciam não serem delas. Daqueles que só levam a roupa do corpo àqueles em que as roupas não têm mais espaço para serem guardadas, adoradores do passado ou do futuro gritam e pedem respostas para algum conforto maior no presente. O gozo por meio do consumo virou ordem e, em um momento em que a festa chega ao fim, as pessoas se perguntam qual o trajeto, para que parte da cidade caminharão e onde depositarão os restos de um banquete que mal começou, mas parece que tem seus minutos contados para acabar. E não há mais ninguém para limpar, a não ser você, os seus próprios dejetos. Continuaremos pela busca de identificar sujeitos capazes de tomar o espaço público e transformá-lo em uma festa sem área vip nem pulseiras ou catracas para o acesso. E debateremos sobre o que resulta deste encontro de corpos historicamente treinados para estarem em ambientes separados ou em funções claramente pré-estabelecidas: está servido e/ou a serviço? O movimento não cessa. Aqui e lá fora "não cansa de não se entender". E é por isso que este trabalho de investigação será sempre tão instigante e inesgotável. Por meio de sintomas que estão no lugar e no tempo em que vivemos, podemos ter a certeza de que há algo do incompreensível em nossa construção que nos trouxe até aqui. E que temos muito que percorrer para chegar, talvez, ao mesmo lugar. Este que jamais será o mesmo.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Sede

Parabéns à cidade que surtou gritando que o que mata a sede é a grana.